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Estrela de David usada pelos judeus na Holanda
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Portugal

// Informações sobre Portugal durante a segunda guerra mundial.

Num período de grandes transformações na Europa, Portugal vê-se obrigado, através do seu chefe de Estado, António de Oliveira Salazar, a gerir uma neutralidade entre dois blocos com interesses em Portugal.
Durante o conflito, surgiram vários problemas para a política portuguesa. Entre eles a questão de Timor e os problemas do volfrâmio e dos Açores.

Portugal na Guerra

Os problemas da política externa portuguesa sempre foram remetidos para segundo plano em prol de outras questões consideradas mais relevantes. Mas a guerra civil espanhola veio alterar essa realidade. A partir de 1936, Salazar chama a si a pasta dos negócios estrangeiros (até 1947) e a da guerra (até 1944). A diplomacia portuguesa vai então reger-se por uma série de directrizes fundamentais para os interesses nacionais:

  • Neutralizar o vizinho espanhol (graças à assinatura do Pacto de Amizade e Não-Agressão em Março de 1939, reforçado por um protocolo adicional em Julho de 1940 e, posteriormente, pela criação do Bloco Peninsular, em Dezembro de 1942).
  • Apoiar-se na secular aliança Luso-Britânica de forma a proteger e preservar a soberania nacional.
  • Ganhar tempo para poder gerir da melhor forma possível, em nome dos interesses portugueses, a complexidade ligada ao estatuto de neutralidade (...) e tirar partido do trunfo que a situação geográfica particular de Portugal e das suas ilhas atlânticas representam. [1].

Em 1936 as forças republicanas e os nacionalistas espanhóis entram em conflito armado. Por muitos considerado inevitável, este confronto veio dar o mote para o nascimento de divisões ideológicas muito marcantes na Europa.

Salazar mantém-se neutro relativamente ao conflito, mas esforça-se por ajudar as forças nacionalistas, concedendo-lhes facilidades junto à fronteira com Portugal. Alguns milhares de voluntários portugueses chegam mesmo a combater ao lado dos espanhóis, roubando rasgados elogios de Salazar, no fim da guerra de Espanha, aquando da vitória dos nacionalistas.

De resto, as afinidades ideológicas entre os dois regimes ibéricos manter-se-ão no pós guerra, como se pode perceber deste discurso do Marechal Carmona, sobre a posição de Península Ibérica na guerra - Si no fuera demasiada presunción por lo que a nosotros respecta, yo ambicionaria que mientras Europa cura sus heridas, fuera la Península una reserva de ideal y mansión de orden y disciplina social. Franco en Portugal, pág. 27">[2].

Por outro lado, a mesma ideia de coesão Ibérica existia por parte de Franco, que proclamava em Portugal (...) y quiso Dios concedernos el don celestre de la paz porque, decididas a mantenerla a todo trance, nos apoyamos mutuamente en el sentir firme de una amistad nacida de nuestro destino histórico común, de nuestra vencidad geográfica y del paralelismo de nuestras instituciones políticas. [3].

Mas em 1939 inicia-se a Segunda Guerra Mundial. No dia 1 de Setembro, os exércitos de Hitler invadem a Polónia e semeiam a semente do que se tornaria uma guerra a uma escala sem precedentes.

Nunca se aliando a nenhum dos blocos, Salazar adopta uma posição ambígua ao longo da guerra, (...) tirando partido do interesse estratégico que as ilhas atlânticas representam e deixando subir a parada relativamente aos Açores. Salazar acaba por se revelar um mestre do pragmatismo na condução da sua política externa, não sem deixar agitar bandeiras de afinidades e sentimentos favoráveis ao Eixo ou aos Aliados que o rodeiam. [4]. Salazar diz também que: O governo considerará como o mais alto serviço ou a maior graça da providência poder manter a paz para o povo português (...) [5].

Deve, porém, ter-se em conta que a pedra basilar na política externa portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial é a aliança Luso-Britânica, celebrada no tratado de Windsor. Esta aliança, que se mantém firme durante o conflito, exprime bem a dependência da sociedade portuguesa relativamente ao império britânico. No entanto ela é extremamente importante para os ingleses durante a guerra, uma vez que tem um papel primordial na defesa dos interesses económicos e estratégicos da Inglaterra em Portugal. Da mesma forma, Portugal não ganharia nada em acabar com a aliança, pelo que assume a sua lealdade para com ela: Por mim (...) tomo tanto a peito cumprir fielmente os deveres da aliança como não deixar, por honra e interesse de ambas as partes, corrompê-la (...). [6]. Pode considerar-se a aliança como a força de equilíbrio entre as relações luso-britânicas. As diferenças ideológicas entre o regime inglês e o Estado Novo legitimam prontamente uma série de suspeitas. À semelhança dos outros regimes dos aliados (com óbvia excepção da URSS), o regime inglês é democrático, liberal e parlamentar, enquanto que Salazar se assume como crítico das democracias - Se há um facto demonstrado pela experiência, é que a Democracia e o liberalismo se esgotaram no último século. [7] - e líder de um regime antidemocrático, antiliberal e antiparlamentar. Afastados que estão ideologicamente os dois regimes, existem outras formas de aproximação que acabam, até um ponto, por permitir a ultrapassagem destas diferenças. Os interesses económicos e a nomeação de embaixadores de renome entre os dois países têm como consequência uma mútua tolerância e permissividade política.

Por outro lado, deve considerar-se da mesma forma importante o Tratado de Amizade e Não-Agressão (Pacto Ibérico) assinado entre Portugal e a Espanha a 17 de Março de 1939, fruto da neutralidade politicamente activa portuguesa.

Acerca das relações entre Portugal e o seu vizinho espanhol, dizia Salazar, a 22 de Maio de 1839: Portugal e a Espanha são obrigados a viver paredes meias na península; a boa ou má vizinhança favorece-nos ou prejudica-nos a ambos. Muitas vezes em oito séculos de vida Portugal lutou contra Espanha ou contra estados Espanhóis para manter ou consolidar a sua independência. (...) dois estados irremovivelmente independentes, duas nações fraternalmente solidárias. [8].

Este tratado vai ajudar decisivamente a neutralização da península ibérica:

  • Serve os ingleses, porque afasta a Espanha nacionalista da Alemanha e mantém o livre acesso ao Mediterrâneo. Garante também a defesa dos seus interesses nos Açores, fundamentais para o controlo do Atlântico Norte. Este é um dos principais objectivos dos ingleses, e para o atingirem esperam fazer de Salazar o seu pivô, tirando proveitos de todas as suas capacidades diplomáticas. (...) o Dr. Salazar é o único homem imaginável que é capaz de consagrar atrás de si a nação inteira e possivelmente de evitar que o general Franco cometa alguma loucura; [9].
  • Serve os portugueses, pois reforça a segurança e garante a inviolabilidade do território nacional. A preocupação com o vizinho espanhol diminui. Eram já notórias algumas ideias de anexação a Portugal, visando unificar a península Ibérica, que começam a preocupar o chefe de estado português: Salazar está absolutamente a par dos projectos de anexação alimentados por alguns membros da falange e das juventudes falangistas. [10]. Salazar está ciente de que conseguiu, numa primeira fase, manter a Espanha fora de Portugal e a Península Ibérica fora da guerra. Servindo os interesses portugueses e agradando os interesses britânicos, Salazar reflecte sobre a questão estratégica da península na guerra e sobre o tratado com Espanha: Quem quer que haja reflectido na política tradicional inglesa e no sentido essencialmente defensivo da sua actuação internacional terá podido compreender quanto a Inglaterra deve apreciar a criação desta verdadeira zona de paz na península, dado que um dos estados é seu velho aliado e outro foi sempre seu amigo. [11]. No entanto, preocupa-se constantemente em desligar-se na Espanha franquista e afirmar a sua lealdade à aliança Luso-Britânica, pois Enquanto a guerra civil se arrastava (na Espanha) (...) os governos português e britânico aprofundavam os problemas da aliança e estudavam em amistosa colaboração as questões relacionadas com a defesa dos dois países.(...) Este simples facto (...) é claramente revelador de como entendemos manter-nos dentro das constantes da nossa História, assegurando na fidelidade à aliança luso-britânica a defesa dos interesses comuns (...). [12].

Por fim, a declaração unilateral da neutralidade portuguesa relativamente ao conflito europeu, proferida por Salazar na Assembleia Nacional, satisfaz também a Inglaterra. Antes de mais, porque o frágil Portugal representaria mais um fardo que uma ajuda. Mas também porque a entrada de Portugal na guerra ao lado dos ingleses poderia levar os espanhóis a aliarem-se a Hitler.

Salazar procura assim uma neutralidade que lhe permita relações com todos os estados beligerantes, de forma a tirar contrapartidas económicas da guerra. Se Portugal tem o dever de não se deixar transviar pelo desassossego geral [13] também (...) a nossa compreensiva universalidade e a extensão dos nossos interesses permitem as melhores e mais amigáveis relações com todos os estados. [14].

 

A Decisão da Neutralidade

No dia 1 de Setembro de 1939 dá-se o início de uma guerra que, antes de tudo, é fortemente ideologizada: põe em confronto directo as democracias e os totalitarismos.

Neste contexto, Portugal procura definir a sua posição no conflito: se, ideologicamente, o Portugal autoritário, antidemocrático e antiliberal parece mais perto da Alemanha e da Itália, por outro, o perigo da anexação que existe na Espanha franquista (apoiada pelo Eixo) faz prever um alinhamento ao lado dos aliados. Nesta perspectiva, qualquer inclinação pode trazer perigos e por em causa o regime, pelo que se procura manter Portugal fora da guerra, adoptando uma posição neutral no conflito. Diz Salazar, na Assembleia Nacional, a 9 de Outubro de 1939: A Alemanha fez-nos saber estar na disposição de respeitar a integridade de Portugal e das suas possessões ultramarinas em caso de neutralidade; a Inglaterra nada pede em troca da aliança e amizade seculares que nos obrigasse a entrar em conflito, (...). O governo podia assim manifestar ao país a deliberação e a esperança de manter na paz o povo português, salvo se a dignidade, os interesses ou os nossos deveres no-la viessem a fazer abandonar. [15].

A declaração da neutralidade portuguesa permite a Portugal assumir uma postura de distanciamento relativamente à Inglaterra, uma vez que, ao contrário da Primeira Grande Guerra, a declaração da neutralidade não está sujeita à aprovação britânica. Por outro lado, ela dá origem ao alargamento do campo de relações com outras potências, e, consequentemente, a uma aproximação aos estados totalitários, de quem Salazar está indiscutivelmente ideologicamente mais perto.

Servindo, como já foi dito, os interesses britânicos da neutralização da península ibérica, a neutralidade legitimava-se no seu carácter bilateral, pois não sendo uma alternativa à aliança, era, pelo contrário, a expressão da sua vitalidade, e embora assente na conjunção de interesses portugueses e ingleses, não trazia quaisquer embaraços às relações germano-portuguesas. [16].

Assim, Portugal encontra-se numa posição privilegiada para declarar a sua neutralidade relativamente ao conflito europeu.

A Evolução da Neutralidade Portuguesa De Setembro de 1939 ao Verão de 1940

Desde o início da guerra até ao Verão de 1940 o regime português mantém boas relações com a Grã-Bretanha, que, de resto, não parece muito preocupada com a propaganda alemã em Portugal. Tem a seu favor as boas relações políticas com o regime, as boas relações com os círculos económicos do nosso país, o peso da aliança Luso-Britânica, o efeito negativo do ataque alemão á Polónia, tida como católica e conservadora e o efeito negativo do pacto Germano-Soviético.

Nesta fase, a neutralidade portuguesa não é (como tinha sido na Primeira Grande Guerra) completamente subordinada aos interesses britânicos. Relativamente aos interesses económicos, em muitos aspectos difere da Primeira Grande Guerra; Salazar mostra-se intransigente e intransponível. Neste campo, o chefe de estado de Portugal esforça-se por tirar os máximos benefícios económicos da neutralidade em troca da maleabilidade política que apresenta. Assim, Portugal tem relações económicas com todos os países beligerantes, conseguindo desta forma ser poupado aos mais fortes e negativos efeitos económicos da guerra.

Estas relações são possíveis devido à astúcia e ao carácter ambíguo da forma de negociação de Oliveira Salazar. Se, por um lado afirma a sua boa vontade no que respeita aos interesses britânicos, por outro fecha os olhos ao contrabando alemão na costa portuguesa.

Não são raros os autores que, no entanto, admitem e defendem a existência de um anglofilismo discreto. Neste sentido, destaque-se o papel de Pedro Teotónio da Silva, embaixador português em Madrid, e de Armindo Monteiro, ministro dos negócios estrangeiros até 1936, e embaixador de Portugal em Inglaterra até 1943. Acerca deste último, justificar-se-à a colocação de um breve excerto de uma carta escrita a Salazar sobre a política externa portuguesa, bem elucidativa da sua inclinação anglófila: E note Vossa Excelência bem que a neutralidade é já há muito considerada (...) uma instituição do passado; (...) tenho sempre defendido uma política que, embora de neutralidade, seja nitidamente favorável à Inglaterra. [17].

É inegável que a postura de Armindo Monteiro é claramente favorável ao governo de Londres. Acerca de um discurso de Salazar que foi mal recebido pela Inglaterra, Campbell chega mesmo a dizer que a minha impressão é que o Dr. Monteiro partilha pelo menos da algumas das nossas opiniões sobre o discurso do Dr. Salazar, e tenho esperança de que apoie pessoalmente os meus reparos. [18].

Esta posição de Armindo Monteiro de algum atrito ao governo Português custar-lhe-à o seu lugar de Embaixador em 1943.



De Julho de 1940 até ao fim de 1942

A partir de Julho de 1940, aquando da queda de França, um novo contexto e novos dados estratégicos vêm alterar a política externa portuguesa. A Alemanha combate a Batalha de Inglaterra, e o Sangue, suor e lágrimas de Churchill, com a ajuda da Royal Air Force (R.A.F.), vão conseguindo manter o solo inglês inviolado.

As divisões Panzer alemãs aguardam a ordem para levarem a cabo a Operação Felix [19] e invadirem a Península Ibérica. Os incessantes pedidos dos meios falangistas espanhóis a Franco vêm agravar a situação: teme-se um ataque conjunto das forças alemãs e espanholas a Portugal. A passagem de neutralidade a não beligerância da Espanha é interpretada por muitos como o prelúdio desse ataque. As pressões espanholas junto do governo português fazem-se sentir: a 26 de Junho o embaixador Teotónio Pereira é avisado pelo ministro do interior espanhol, Serrano Suñer (cunhado de Franco) que Portugal deveria temer um ataque alemão se o nosso país persistisse na aliança com a Inglaterra.

A 6 de Julho, é o próprio Franco que aconselha Teotónio Pereira no mesmo sentido. Salazar concentra-se assim em manter a Espanha fora de guerra e em segurar Franco face às pressões do eixo.

No entanto, é assinado o protocolo adicional ao Pacto de Não-Agressão, que obriga os dois países a uma posição de afastamento do conflito, e de salvaguarda dos interesses mútuos: (...) concentrar-se entre si acerca dos melhores meios de salvaguardar quanto possível os seus mútuos interesses, sempre que se prevejam ou verifiquem factos que por sua natureza possam comprometer a inviolabilidade dos respectivos territórios metropolitanos ou constituir perigo para a segurança ou independência (...) ou arrastar qualquer delas para um conflito internacional com terceiros. [20]. Se, por um lado, este protocolo adicional garante a Salazar a acalmia das tendências de anexação espanholas, por outro é também vista como uma vitória para Franco, que, numa demonstração clara da sua inclinação para as forças do eixo, informa Berlim do protocolo nestes termos: Portugal foi parcialmente desviado da órbita britânica e lançado na direcção da nossa. [21].

No entanto, a ameaça constante dos exércitos alemães nos pirinéus não pode ser ignorada.

Desta forma, Portugal vê-se dividido entre a hipótese de uma aproximação aos aliados - correndo o risco de ser invadido pela Espanha e Alemanha e perder a sua independência e Império - ou aliar-se ao Eixo e perder as ilhas atlânticas e ver Angola e Moçambique passarem para as mãos da África do Sul.

Embora Salazar se esforce sempre por convencer Franco de que a neutralidade dos dois países é o único caminho para poupar e proteger a Península Ibérica, o caudillo continua a tentar negociar a entrada de Espanha na guerra ao lado da Alemanha, em troca de alguns benefícios económicos e territoriais (nomeadamente em Marrocos), que os alemães teimam em não aceitar. Tal como Portugal para a Inglaterra, também a Espanha se poderia tornar mais um fardo que um aliado para a Alemanha, devido à sua fragilidade.

Em 16 de Outubro de 1940, Serrano Suñer é nomeado Ministro dos negócios estrangeiros de Espanha, levando a facção germanófila ao triunfo total neste país. Suñer não esconde os seus desejos de anexação de Portugal, chegando mesmo a dizer a Ribbentrop (o ministro dos negócios estrangeiros alemão) que geograficamente falando, Portugal não tem qualquer direito de existência [22] (16 de Setembro de 1940), e a Francesco Laquio (embaixador italiano em Madrid) que Portugal deveria fazer parte de uma grande Espanha. [23].

Após a visita relâmpago do Almirante Canaris a Madrid, Hitler convence-se definitivamente de que a Espanha não está preparada para a guerra. Independentemente dos esforços de Mussolini junto de Franco, a Espanha não declara guerra aos aliados, servindo assim os interesses britânicos e portugueses. Um ano mais tarde, em 1942, é assinado o tratado conhecido por Bloco Ibérico ou Peninsular que acaba por pôr um fim às tendências hegemónicas da Espanha sobre a Península, embora não consiga influenciar e alterar a posição de Franco relativamente ás forças do Eixo. Será necessário esperar até o Outono de 1943 para que o chefe de estado do país vizinho retome a neutralidade e retirar da frente leste a famosa División Azul, de 18.000 voluntários.

Outrora longe da guerra, Portugal encontra-se agora numa situação delicada. A população portuguesa lida com a guerra diariamente: O tema da guerra toma conta dos espaços: os muros clandestinamente pintados com V de vitória, os placardes dos jornais, as montras das lojas, (...) enchem-se de cartazes. As pessoas carregam emblemas, distribuem panfletos, (...) com artigos de propaganda (...). O conflito (...) é o tema de conversa de café; de bichas à porta dos estabelecimentos (...). [24].

O governo português esforça-se por manter uma neutralidade equidistante, mesmo sob a força da ideia da invencibilidade dos exércitos alemães e da pressão das forças germanófilas em Portugal, que tentam fazer ver, ajudados pela propaganda de Berlim, que os ideais britânicos são uma ameaça séria à sobrevivência do Estado Novo. Agravados pelos contactos estabelecidos pelos ingleses com o clandestino Partido Comunista Português no sentido de organizar uma resistência em caso de invasão alemã, as relações entre Lisboa e Londres deterioram-se. A título de exemplo das tendências germanófilas de existiam já há algum tempo em parte dos portugueses, existe uma carta do Tenente Gonçalves de Andrade a Adolf Hitler, em 1936, pedindo com urgência a ajuda para a criação de uma Liga anticomunista europeia que faça frente ao perigo soviético [25].

A 22 de Junho de 1941, a Alemanha invade a União Soviética e ganha definitivamente o estatuto de porta-estandarte do anticomunismo.

A Península Ibérica passa então para segundo plano.

Em Portugal faz-se sentir com alguma intensidade o apoio de alguns meios germanófilos e anticomunistas à invasão alemã. A destacar o apoio da Legião Portuguesa, organização declaradamente afecta à causa alemã. É pois a invasão da União Soviética pelos alemães que provoca uma assunção clara da Legião Portuguesa do seu germanofilismo. Pela primeira vez, é tornada pública uma posição de claro alinhamento pela luta desenvolvida pelos nazis, através de uma ordem de serviço publicada no dia 10 de Julho de 1941 pela Junta Central da Legião Portuguesa no Diário de Notícias. [26] Contra Moscovo, vencer! (...) não podem ficar indiferentes à campanha libertadora da opressão vermelha nenhuma nação, nenhum povo, nenhum nacionalismo; contra Moscovo alinharão os que querem a ordem; marcharão as legiões de todo o mundo, os exércitos defensores digníssimos das pátrias, (...). O legionário português como nacionalista e cristão é, acima de tudo, anticomunista. [27].

Além da Legião Portuguesa, outras personalidades apoiam a causa alemã. Entre eles Fernando dos Santos Costa (Subsecretário do Estado de Guerra), Manuel Ortins de Bettencourt (Ministro da Marinha), João Costa Leite (Lumbrales, um dos primeiros responsáveis pela Legião Portuguesa e ministro das finanças aquando da remodelação ministerial de 28 de Agosto de 1941) e Mário Figueiredo (Ministro da educação Nacional na mesma data). Por outro lado, os apoiantes da Inglaterra eram, entre outros, Marcelo Caetano (então Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa), Pedro Teotónio Pereira (embaixador em Madrid), António Ferro (Director do SPN) e o capitão Agostinho Lourenço (responsável pela P.V.D.E.).

O bloqueio económico decretado pela Inglaterra em 1940 a Portugal e Espanha dá o mote para o agravamento das relações luso-ibéricas. Proposto por Hugh Dalton, Ministro da economia britânico, sob o pretexto de, embora neutros, os países da Península Ibérica serem contíguos a territórios inimigos, este bloqueio vem colocar a economia portuguesa em sérias dificuldades. Vem, por outro lado, fomentar a intensificação das trocas comerciais com a Alemanha e o afrouxamento dos laços tradicionais com o Reino Unido. Quando os Estados Unidos da América adoptam as mesmas medidas económicas dos ingleses relativamente à Península, o nosso país vai comprar à Alemanha as matérias primas de que necessita, bem como alguns bens de primeira necessidade, em troca do volfrâmio português, tão importante para o esforço de guerra alemão [28].

O agravar da crise entre Portugal e a Inglaterra acontece aquando do tratado Anglo-Soviético de 16 de Maio de 1942, que mereceu de Salazar duras críticas, expostas no seu discurso aos microfones da emissora nacional, em 25 de Junho: Refiro-me especialmente à inegável perturbação dos espíritos causada pela aliança anglo-russa e à dolorosa inquietação que se pressente por toda a parte, (...) em virtude da solidariedade emprestada pelas democracias inglesa e americana ao governo soviético. [29].

Confesso adepto do anticomunismo, Salazar havia dito já em 9 de Outubro de 1939, na Assembleia Nacional, acerca da crise ideológica que se vivia no seio da Europa, que (...) dos povos que se interrogam ansiosos sobre se haverá ainda, no seio desta derrocada, lugar à verdade, à honra, à justiça, à legitimidade do direito, ao bem comum dos homens e das nações. Nem nós podemos crer (...) que uma nação como a Rússia, que exactamente negou estes princípios seja quem vem (...) ajudar a restabelecê-los na Europa ocidental. [30].

Respondendo às acusações Inglesas de parcialidade, numa altura em que, como vemos, as relações Anglo-Portuguesas já viveram melhores dias, Salazar defende a neutralidade portuguesa dizendo que Cómoda ou incómoda, egoísta ou não, a neutralidade não é vantajosa senão enquanto serve o interesse nacional (...). [31]. Nesta altura o Estado Novo está irremediavelmente conotado de germanofilismo. De tal facto são exemplo as conferências anticomunistas, promovidas pela União Nacional na Emissora Nacional de Julho a Dezembro de 1942. A propaganda alemã ganha força no sentimento anticomunista português, enquanto que a propaganda inglesa, apostando na exaltação da firme resistência do exército vermelho e do povo soviético, encontra no próprio Salazar um obstáculo: é ele mesmo que diz que não está disposto a permitir que a Inglaterra se torne num canal de propaganda soviética.

No entanto, o chefe de estado português preocupa-se em manter boas relações com ambos os blocos beligerantes. Embora o sentimento nacional nesta fase seja maioritariamene pós-alemão, Salazar tenta manter o equilíbrio da política externa portuguesa, levando mesmo o embaixador britânico Campbell a escrever, no ofício de 7 de março de 1942, que (...) isto não é sintoma de má vontade (...) o próprio Dr. Salazar, que é extremamente cuidadoso em não revelar excessivamente o seu pensamento é obviamente simpatizante da causa britânica [32]. Por outro lado, Goebbels, o ministro da propaganda do III Reich, escreve no seu diário, um ano mais tarde: Salazar fez ontem um discurso extraordinariamente anti-bolchevique que, contudo, não foi público. (...) É suficiente, porém, para concluir que enquanto Salazar estiver no poder em Portugal, nada de realmente hostil será feito contra nós. [33].

A par desta postura equidistante que Salazar parece querer manter, cultiva-se em Portugal um verdadeiro sentimento antiamericano. O desprezo de Salazar para com a nova potência, ajudado pela imprensa (nomeadamente pelo Diário de Notícias) e pelos serviços de propaganda, onde António Ferro se encarrega de destruir a cultura popular americana e de dar a ideia dos EUA como um país de negócios escuros e de gangsters, fomentam um sentimento de anti-americanismo na população portuguesa. Roosevelt irá pagar mais tarde, aquando das negociações sobre os Açores, a imagem de milionário anti-colonialista e reformista [34] que lhe é criada em Portugal.



A Questão de Timor


 

No dia 17 de Dezembro de 1941 as tropas holandesas e australianas desembarcam em Timor sob o pretexto de defender o território português da ameaça de invasão nipónica. O império português, até aqui intocado, é afectado directamente pelo rumo da guerra.

A Austrália procura garantir o controlo de uma ilha situada tão perto do seu próprio território, e a Holanda pretende precaver-se contra a invasão Japonesa e salvaguardar o seu império na actual Indonésia.

Portugal não impede este desembarque inesperado. Por um lado, procura evitar uma situação de conflito aberto com os dois países, por outro, a pequena guarnição de Timor é incapaz de fazer frente aos invasores. É também com este último ponto que os australianos e o holandeses fundamentam e justificam a invasão: querem ajudar Portugal a combater a iminente invasão japonesa - O Residente de Koepang, acompanhado do cônsul australiano Ross (...) apresentou ao governador da colónia um Ultimatum exigindo o consentimento para o desembarque das tropas austro-holandesas destinadas a ocupar Dili, pois crêem iminente uma tentativa dos japoneses para se fixarem na parte Portuguesa de Timor (...) [35].

Mais uma vez vem Salazar pedir explicações aos ingleses, culpados, a seus olhos, de negligência. O contingente enviado de Moçambique para reforçar a guarnição de Dili não chegará a tempo: os japoneses invadem Timor no dia 19 de Fevereiro de 1942 e expulsam as tropas holandesas e australianas. Salazar protesta pelos meios diplomáticos, mas sem nunca perder de vista o risco que seria hostilizar o Japão: Portugal perderia definitivamente Timor e também Macau, cercado pelo exército Japonês no sul da China.

Assim, as relações entre o nosso país e o Japão não são tão afectadas como seria de esperar. Em 1942, os dois países celebram mesmo quatro séculos de relações bilaterais.

Por outro lado, a 23 de Junho do mesmo ano, Salazar informa a Inglaterra da sua prontidão para ajudar militarmente os aliados a expulsarem os japoneses da ilha. Esta posição não é alheio o facto do chefe de estado português recear a anexação australiana de Timor. A capacidade diplomática ambígua de Salazar coloca novamente o nosso país numa posição neutral que consegue agradar às duas partes em conflito sem prejudicar gravemente Portugal.
 

Do fim de 1942 até ao fim da guerra

A última fase da política externa portuguesa da II guerra mundial começa no fim do ano de 1942 e prolonga-se até 1945.

É precisamente no fim de 1942 que o rumo da guerra se altera: Rommel e o seu Afrika Korps são derrotados em El-Alamein e começa a retirada para ocidente; os americanos, após o desastre de Pearl Harbor, começam a conquistar as primeiras vitórias no Pacífico, os alemães sofrem um duro revés em Estalinegrado e os aliados desembarcam no norte de África (Operação Tocha). Este último acontecimento, que, pela sua proximidade com o território português e espanhol, pode levar à deterioração entre as relações entre os países Ibéricos e os aliados, e nomeadamente a Inglaterra, merece do governo britânico uma especial atenção. Consciente de que a sorte da guerra começa a mudar de extremo, Campbell escreve a Salazar para lhe dizer que tendo em atenção as estreitas relações entre Portugal e Espanha, e o peso que se atribui em Madrid à opinião de Vossa Excelência, atrevo-me a sugerir que considere a utilidade de informar o governo espanhol desta mensagem e que use a sua influência para o tranquilizar no que respeita às intenções do governo de Sua Majestade e do governo dos Estados Unidos, cujo desejo é poupar a Península Ibérica aos horrores da Guerra e ver não só Portugal mas também a Espanha tomarem o seu lugar em paz e prosperidade no mundo do pós-guerra. [36].

É o próprio Churchill que redige uma mensagem a Salazar, para o assegurar de que o nosso País não seria de alguma forma prejudicado ou obrigado a abandonar a sua neutralidade (que servia os britânicos) por causa das operações militares no norte de África: A área das operações é vizinha de Portugal e Espanha, e em vista das estreitas e amistosas relações entre as nossas duas nações, baseadas desde à séculos na aliança Anglo-Portuguesa, eu desejo assegurar Vossa Excelência de que é firme intenção do governo de Sua Majestade e do governo dos Estados Unidos não envolver Portugal nem a Espanha (...) nas hostilidades que resultarem daquelas operações. [37]. Mesmo o presidente Franklin Roosevelt, chefe de Estado, aliás, de um país pelo qual Salazar nutria algum desprezo, escreve ao presidente do concelho, dizendo-lhe Espero que aceite a minha segurança solene de que o seu país nada tem a recear dos motivos que determinam os Estados Unidos. [38].

Em 1943 as forças do eixo retiram-se definitivamente do norte de África, os alemães tentam desesperadamente travar o contra-ataque russo na frente leste, os aliados invadem a Sicília e Mussolini cai em Itália. Existe agora uma nova realidade a que Portugal não pode fechar os olhos: os aliados procuram nas suas relações com os países neutros (e consequentemente com Portugal) garantir respostas às suas necessidades politico-estratégicas, uma vez que a sua principal preocupação é a de levar ao sucesso as suas operações ofensivas sobre a Europa.

Ideologicamente oposto aos regimes aliados, o Salazarismo português chega mesmo a ser posto em causa na hipótese deste inviabilizar alguns pedidos vitais para os aliados. É o que acontece com as duas grandes questões deste período: os problemas da concessão das facilidades militares nos Açores aos Britânicos e a exigência de um embargo de venda de volfrâmio aos Alemães [39]. Embora a via diplomática seja sempre privilegiada, o certo é que o derrube de Salazar chega a ser equacionado pelos ingleses.

A mudança do rumo da guerra afecta Portugal também a nível ideológico: a perspectiva da vitória das democracias, e mais grave ainda, do bolchevismo sobre os totalitarismos europeus começa a delinear-se no horizonte. Política e ideologicamente longe dos aliados, Salazar procura manter a neutralidade que serve os interesses portugueses, afirmando no entanto a sua distância relativamente às potências aliadas.

Crente na derrota do eixo, mas ansioso por uma paz negociada que possibilite à Alemanha a manutenção do estatuto de "guarda da Europa" contra o bolchevismo russo, Salazar, com o apoio de Franco, leva a cabo uma tentativa frustrada de convencer os aliados a negociar uma paz separada com os Nazis. Os países aliados tinham, todavia, um outro objectivo: o de forçar a Alemanha a uma rendição incondicional.

Em 1942 surge o Bloco Ibérico, aquando da visita do conde de Jordana a Portugal, em Dezembro. É o início da passagem da não beligerância espanhola para a neutralidade. A Península Ibérica unifica-se sobre o princípio do distanciamento da guerra e dos conflitos ideológicos europeus.

Salazar apercebe-se da nova realidade: Por um lado, a Alemanha não pode resistir ás forças aliadas, por outro, as graves dificuldades economico-sociais portuguesas (agravadas pelos maus anos agrícolas, pela seca, pelo contrabando, etc.) que têm na sua base o bloqueio aliado podem vir a ser reforçadas como medida de represália. Está dado o mote para que a política externa portuguesa acompanhe a evolução da guerra e sirva os interesses do nosso país. É a altura de enveredar por uma neutralidade colaborante com os aliados.

Usando todas as suas capacidades de diplomata e negociador, Salazar vende caro a nova postura de Portugal ante o conflito: todas as concessões feitas aos aliados são pagas ao mais alto preço possível. Escreve o embaixador britânico Campbell, em Julho de 1943: Sempre previ que quando o dia da nossa vitória se aproximasse, as relações com este país complicar-se-iam em vez de se facilitarem. Agora entrámos nessa fase. [40]. Acertara Campbell nas suas previsões.

Desta forma, Salazar procura garantir a salvaguarda do regime independentemente da sorte da guerra, avisando que Portugal não se submeterá aos vencedores. Garantir, em troca da sua cooperação, o fornecimento de combustíveis, bens alimentares, matérias primas, etc. que permitem minimizar a crise interna portuguesa. Rendibilizando politicamente ao máximo a neutralidade colaborante, salvaguardar a sobrevivência do regime e do Império Colonial.

Nos dois grandes contenciosos deste período (Açores e Volfrâmio), o chefe de estado português cede no limite das discussões, quando a sua intransigência seria já um suicídio. Procurando sempre retirar contrapartidas económicas das negociações, Salazar e o seu regime são um incómodo. Diz Armindo Monteiro que (...) para arrancar ao Presidente do conselho qualquer decisão é preciso fazer luzir aos seus olhos os ganhos materiais que o Estado pode tirar da negociação em curso. [41].

Quando, a 8 de Junho de 1943 Campbell apresenta a Salazar o pedido inglês de facilidades militares nos Açores, este contrapõe-lhe, apenas 5 dias volvidos, uma concordância de princípio que dá origem a morosas e árduas negociações políticas, militares e económicas.

O longo e desgastante processo de negociações quase leva a uma intervenção militar inglesa no território nacional, que estava já, aliás, pensada: a operação Lifebelt. Churchill escreve a Roosevelt a contar-lhe da sua frustração (...) não vejo qualquer substância moral no argumento legalista de que não se deve pisar a neutralidade portuguesa no que toca a umas ilhas sem importância em tempo de paz mas que adquiriram um significado vital em tempo de guerra. [42]. Mas Salazar assina o acordo a tempo: secretamente, a 17 de Agosto de 1943. Além de obter garantias britânicas de salvaguarda do Império português, Portugal estabelece um novo acordo dobre assuntos económicos e facilidades de transportes marítimos. Este acordo fica, no entanto, congelado até Junho de 1944, quando Portugal cede finalmente às pressões aliadas e decreta o embargo de volfrâmio à Alemanha.

Finda que está a guerra, Salazar apresenta-se como o líder de um país afecto à causa aliada, mas como um líder igual a si mesmo, preocupado com as consequências da vitória das forças americanas, inglesas e soviéticas. Preocupa-se essencialmente em distinguir as duas primeiras da última. A vida tem surpresas de fazer pensar: quase toda a Europa se bateu e se arruinou para se opor à «nova ordem» da concepção germânica; mas é sobre as suas ruínas ainda fumegantes que se vê alastrar a «nova ordem comunista». Ora esta é, por definição, exclusiva e inconciliável com o conceito de civilização de que se orgulham as outras hegemonias. A Europa tem que escolher. [43].



A Questão do Volfrâmio - Os Acordos com a Alemanha

O volfrâmio é um mineral importante para o esforço de guerra dos dois blocos em conflito. Numa primeira fase, é a Alemanha que é privilegiada com o acordo de 24 de Janeiro de 1942, fruto do encontro entre Salazar e Hanz Eltze, conselheiro da Legação Alemã em Lisboa, a 31 de Outubro do ano anterior. Deste acordo sai o compromisso do governo português de controlo do preço do volfrâmio, em troca de cerca de cem mil toneladas de ferro, tão necessário à construção civil e naval, bem como outros produtos a preços razoáveis.

O estabelecimento do acordo havia sido sugerido pelo governo germânico, por intermédio do seu conselheiro económico da legação alemã (Eltze), que estaria sempre presente nas negociações. Fica escrito o texto que finalizaria o acordo: Portugal procurará fornecer 3000 toneladas anuais de volfrâmio, a uma média de 250 toneladas por mês, a 150$00 por quilo. Em troca, receberá dez mil toneladas de sulfato de amónio, 300 vagões de caminho de ferro de 15 toneladas, tambores e máquinas e 60 mil toneladas de ferro e aço a preços de antes do início da guerra.

No seguimento das reuniões e encontros que visam reforçar este primeiro acordo, no primeiro mês de 1942, nasce um outro acordo, datado de 24 de Janeiro deste ano. Neste acordo, que termina no dia 1 de Março de 1943, Portugal obriga-se a fornecer ao governo alemão ou a empresas por ele indicadas, a quantidade de 2.800 toneladas de volfrâmio concentrado, ao preço de 150$00 o quilo. Em troca, a Alemanha exporta as seguintes mercadorias para Portugal: 60 mil toneladas de ferro, meio fabricado, tal como carris, chapas, arame, etc.; 500 vagões de carga de caminho de ferro; 10 mil toneladas de sulfato de amónio; tambores de ferro até ao valor de 450 mil marcos alemães; 2 mil toneladas de papel para jornais.

O transporte do volfrâmio é feito totalmente pelos alemães, a partir de Portugal. Eram da mesma forma os alemães que tinham as despesas de transporte das mercadorias que vinham para Portugal até à fronteira com a Espanha, local a partir do qual os encargos são da responsabilidade das empresas portuguesas.

Começam então as dificuldades em cumprir o acordo. Se a Alemanha tem que dispensar materiais que muita falta lhe fazem ao esforço de guerra, Portugal luta contra a escassez de minério, a pressão dos aliados e o contrabando.

Um último acordo é assinado por Oliveira Salazar e pelo enviado extraordinário Baron Oswald Hoyningen-Huene, no dia 21 de Abril de 1943, com duração prevista até 29 de Fevereiro de 1944.

Portugal garante então 2.100 toneladas de volfrâmio a 150$00 o quilo, em troca de material do mesmo género do constante no acordo anterior, no valor aproximado de 31.433.000 marcos, que correspondem a 90% do volfrâmio exportado, sendo os restantes 10% pagos em divisas.

Dos produtos a fornecer a Portugal, destacam-se ferro para carris, chapas e arames, 500 vagões de carga de caminho de ferro, 1.000 rodas para vagões e 200 camiões OPEL-BLITZ no valor de 2.000.000 de marcos. Todas as mercadorias são vendidas a preços de 1938, exceptuando o agravamento de 10% para 20.000 toneladas de ferro. Saliente-se o facto da continuidade da obrigação do governo português em manter o preço do volfrâmio estável a 150$00 por quilo, que possibilita aos alemães grandes vantagens relativamente aos preços do mercado negro (entre 500 e 1.000 escudos por quilo).

O nosso país continua, no entanto, a debater-se com a escassez de minério. Salazar diz mesmo que é possível que o minério entregue não exceda dois terços da referida quantidade. [44]. Tem razão Salazar: tal como nos anteriores acordos, os alemães não vêm os valores que requeriam serem atingidos. No fim do prazo de vigência existe um défice de 550 toneladas.



A Questão do Volfrâmio - O Bloqueio Económico e os Acordos com os Aliados

Após Março de 1942, aquando do corte do fornecimento do volfrâmio proveniente do oriente à Alemanha, o nosso país está sujeito a uma série de pressões externas visando o controlo do comércio do volfrâmio português. Nesta altura, é o eixo quem mais necessita do nosso minério, uma vez que os aliados dispõem ainda de fontes alternativas de abastecimento, nomeadamente da Birmânia.

A luta das forças aliadas é, nesta altura, basicamente diplomática, e tem como objectivo o corte daquela que se tornou a principal fonte de abastecimento do eixo. A Grâ-Bretanha domina já uma grande parte da produção de volfrâmio em Portugal: a companhia Beralt Tin controla-a. Assim, a Inglaterra procura assegurar o predomínio nas minas legais, que era já seu, mas tenta também comprar a maior parte do minério extraído ilicitamente por camponeses.

Em Março de 1942 a Inglaterra e os Estados Unidos intensificam o bloqueio económico à Península Ibérica. A divisão e destino dos produtos, o controlo de excedentes e a sua exportação ficam agora na posse de uma comissão anglo-americana, sediada nos Estado Unidos, detentora, segundo Salazar do maior poder económico que alguém já teve no mundo. [45]. Nenhum produto pode ser importado por Portugal, mesmo que seja proveniente das colónias, sem prévia autorização britânica através dos sistemas navicert (documento que certifica que as mercadorias não são de contrabando), que regulam as quotas de importação das mercadorias.

Usado não só contra Portugal, mas também contra outros países neutros, o bloqueio económico constitui-se como uma poderosa arma de guerra. As quotas são estabelecidas pela Inglaterra sempre abaixo das necessidades do nosso país, para que não haja a tentação de exportar o excesso para o inimigo, através de contrabando.

Agravado pelo início da guerra na frente leste, em 1941, o comércio do volfrâmio português ganha dimensões nunca esperadas. Por duas vezes (em Novembro de 1941 e Março de 1942) o governo português tenta assumir o controlo do comércio do mineral, e das duas vezes as medidas fazem vacilar as já frágeis relações Luso-Britânicas.

O fim do receio das potências aliadas relativamente ao que parecem ser medidas germanófilas dá-se com o acordo entre a Inglaterra, os Estados Unidos da América e o nosso país, em 24 de Agosto de 1942, celebrado entre Oliveira Salazar e o embaixador da Grã-Bretanha, Ronald H. Campbell.

O acordo garante um tecto de 4.000 toneladas às exportações das minas anglo-americanas, acrescido de 50% sobre o minério livre. Lembre-se, como foi atrás referido, que as exportações para a Alemanha são limitadas a 2.800 toneladas (número que compreende as minas e o minério livre). Deste acordo fica também o compromisso português de reprimir a compra ilegal de volfrâmio e o seu contrabando. Esta medida afecta particularmente a Alemanha, que tem neste meio uma forma de suplantar a sua quota.

No entanto os aliados não estão totalmente satisfeitos com a situação, uma vez que o contrabando Alemão não abranda, e é precisamente na altura em que estes se preparam para propor um novo acordo mais vantajoso que Salazar apresenta um outro acordo alternativo de volfrâmio com a Alemanha. Este novo acordo suscita grandes manifestações de desagrado por parte dos aliados. Para eles, a compra do volfrâmio, mais do que satisfazer a necessidade que a Inglaterra e os Estados Unidos dele têm, evita que chegue aos alemães por via clandestina.

Nesta nova conjuntura, os aliados satisfazem-se apenas com o prolongamento (em Julho de 1943) do acordo de Agosto de 1942, pondo de parte a ideia de retaliações no campo de fornecimentos, visando não prejudicar as negociações dos Açores.

Porém, em Janeiro de 1944, os Aliados intensificam as suas manobras estratégicas de corte das linhas de fornecimento de matérias-primas à Alemanha. Consequentemente, as relações Luso-Britânicas entram numa nova fase: o embaixador Campbell apresenta em Lisboa a nova posição Inglesa que exige o embargo da exportação de volfrâmio para a Alemanha. A questão deixa de ser meramente comercial para passar a ser estratégica.

Campbell encontra-se com Salazar em 23 de Janeiro para lhe comunicar e reafirmar a importância do corte de metais à Alemanha. Neste campo, Portugal é já a única fonte das importações alemãs de volfrâmio.

Um ataque alemão à península ibérica já está quase definitivamente fora do horizonte, mas Salazar não hesita a recorrer a este argumento para vender cara qualquer cedência nos acordos com os aliados.

No entanto, as pressões políticas e diplomáticas Inglesas (com intervenções pessoais de Churchill e do General Smuts entre outros) dão os seus frutos.



A Questão do Volfrâmio - O Embargo Total à Exportação do Volfrâmio

Embora Salazar resista sempre à ideia do embargo que considera ser fatal para a Alemanha, e que consequentemente irá possibilitar o avanço dos exércitos vermelhos na frente leste, acaba por ceder às pressões, quando verifica que estas começam a fazer perigar a integridade do império colonial português e a sobrevivência do regime. Procurando ganhar tempo, numa hábil forma de negociação que lhe permite efectuar manobras diplomáticas que visam trazer mais valias para Portugal, Salazar protesta veementemente junto de Campbell, a quem lembra que o embargo representa um prejuízo de 9 a 10 milhões de libras por ano para a economia portuguesa, bem como o desemprego de 80 a 100 trabalhadores das minas de volfrâmio. A este respeito, diz Yves Léonard: na maior parte das vezes tudo se passa como se, consciente de ter de ceder (...) à pressão habilmente exercida pelos aliados graças ao bloqueio marítimo e à limitação de provisões, Salazar procurasse acumular, (...), os obstáculos e as manobras jurídicas de maneira a criar, (...), um conflito que, no último minuto, acabava por se conseguir resolver, não sem antes obter (...) algumas vantagens sob a forma de compensações ou de garantias suplementares. [46].

Mas não desta vez - a Inglaterra não permite mais atrasos, e, no dia 3 de Junho Salazar responde oficialmente afirmativamente ao pedido Inglês.

A 12 de Junho o governo decreta no Diário do governo encerramento geral das minas de volfrâmio e o fim das exportações. Internamente, a medida é publicitada como uma prova de fidelidade á aliança com a Inglaterra.

O bloqueio aliado à Alemanha é agora total. Em Agosto de 1944 as comunicações Germano-Ibéricas conhecem um fim.

No fim da guerra, a questão do volfrâmio acaba, a par da questão dos Açores, por servir os interesses portugueses e do regime, constituindo-se mesmo, por um período de tempo, como o motor da economia portuguesa.

Os aliados, finda que está a guerra, mostram-se claramente favoráveis à manutenção do regime, e dão garantias de salvaguarda do império português.

Salazar consegue, quer através do acordo sobre os Açores com a Inglaterra (e mais tarde com os EUA), como pela aceitação do embargo de volfrâmio, assinar o acordo de 26 de Janeiro de 1945, que satisfaz parte das necessidades mais imediatas do nosso país.

Por último, os negócios de guerra possibilitaram a acumulação de ouro e dinheiro primordiais para o fomento económico do pós guerra.

Um ponto é para nós assente - não faremos da guerra um negócio, e este princípio dominará as relações de Portugal com os países estrangeiros, se também assim procederem para connosco. [47].

Salazar enganou-se: o volfrâmio foi um negócio de guerra, que acabou por beneficiar de sobremaneira a economia portuguesa.
 

A Questão dos Açores

As ilhas atlânticas, são geograficamente vitais para o domínio do oceano Atlântico e uma base avançada (ou Outpost, como lhe chama José Freire Antunes) para os americanos.

Mas se Salazar tem sempre em mente a aliança Luso Britânica e os laços históricos que unem os povos Inglês e Português, nutre pelos Estados Unidos da America um verdadeiro desprezo e antipatia. Vistos como o estandarte do neo-liberalismo e da democracia de que Salazar tão exaustivamente teima em livrar Portugal. Os EUA não colhem no nosso país as mesma simpatias que os Ingleses.

Preocupados com a protecção do Atlântico após a queda de França e o enfraquecimento da marinha Inglesa, os EUA assumem como certa a tomada das ilhas atlânticas pelas forças do eixo assim que estas invadissem a Península Ibérica.

Assim, existe a necessidade de sensibilização da opinião pública americana para os perigos que advinham da captura de Cabo Verde e muito especialmente dos Açores pelos alemães: Seria uma ameaça maior para os EUA do que a conquista do Hawai pelos Japoneses (...) Deve por isso ser imediatamente tornado claro neste país que os Açores são de interesse tão vital para a América como a Martinica ou a Bermuda e a Terra Nova, e que nenhuma acção deve ser excluída para tornar a ocupação dos Açores pelos poderes do Eixo uma impossibilidade. [48].

Tomando como certa a invasão da Península pelas forças alemãs, a Inglaterra traça planos secretos para a defesa militar do nosso país, que passam até pela criação de uma agenda de envio de uma força britânica para Portugal. Estas orientações vão no sentido dos desejos de Armindo Monteiro, que quer estreitar os laços entre os dois países. Salazar abranda mais uma vez o processo, e acalma os ímpetos Anglófilos do embaixador Português.

Encontramo-nos então num período de extrema sensibilidade, em que a Alemanha e a América se acusam mutuamente de planos para a ocupação dos Açores. Ansioso por arrastar os EUA para a guerra, Churchill propõe a Roosevelt o envio de um esquadrão americano para patrulhar as ilhas, como forma de intimidação a Hiter para que este não aja em resposta a uma possível invasão inglesa aos Açores, e também sob forma de pressão sob Salazar. No entanto, receantes da reacção portuguesa a essa patrulha, os Americanos declinam o convite do chefe de estado Inglês, e defendem uma ocupação das ilhas apenas e só se os alemães as atacarem. Da mesma forma diplomática, pedem a Churchill que informe Lisboa e Madrid no caso da ocupação ser um objectivo claro, ao que Churchill responde que isso seria o mesmo que informar Berlim. O mesmo esforça-se por demonstrar a Roosevelt que a anexação dos Açores nada teria que ver com o aumento do território Inglês, mas tão somente com a defesa dos interesses e do território Britânicos na guerra, e que a soberania Portuguesa seria restaurada após o conflito.

No início de Maio de 1941, após as vitórias alemãs na Grécia e na Cirenaica, Roosevelt começa a defender uma posição de maior intervencionismo. A 7 de Maio, a ocupação dos Açores figura mesmo no segundo lugar prioridades do Estado Maior Americano, logo a seguir a Dakar. Uma semana depois, Roosevelt ordena que três navios de guerra e alguns aviões deixem Pearl Harbour e se juntem à esquadra americana no Atlântico. Na mesma altura, envolvem a África Ocidental a norte do equador, as ilhas espanholas e portuguesas na integração da doutrina Monroe (de protecção aos interesses americanos, como é sabido). A 22 de Maio, Roosevelt pede ao almirante Harold Stark a preparação de uma força de ocupação do arquipélago Português num prazo de 30 dias (2500 homens). No dia em que o presidente norte americano dá a ordem de preparação do ataque aos Açores, o Bismark e o Prinz Eugen, dois navios de guerra alemães, afundam o cruzeiro britânico Hood e danificam seriamente o Prince of Wales. Além de uma grave derrota moral para a marinha britânica, a ameaça marítima alemã faz-se sentir na área dos Açores. E esta permaneceria real até ao afundamento do Bismark junto à costa francesa pela força aérea Inglesa, a 27 de Maio.

Embora alguns generais alemães se esforcem por convencer Hitler a invadir os Açores, este prefere esperar pelo fim da operação Barbarossa antes de quebrar a neutralidade Americana, de forma a que o esforço de guerra da Alemanha e pudesse dirigir para uma só frente ocidental (Inglaterra e EUA). De qualquer forma são executados actos esporádicos de agressão, como o afundamento do navio mercante Robin Moor (21 de Maio), que são aproveitados por Churchill para empurrar os americanos para a guerra.

O anti-americanismo Salazarista continua a minar as relações entre Portugal e os Estado Unidos. Quando Roosevelt informa Churchill da sua intenção de enviar um emissário secreto a Lisboa para perguntar a Salazar da sua disponibilidade para pedir auxílio aos EUA e à Inglaterra na defesa dos Açores, caso os alemães invadissem a Península Ibérica e o governo português fosse obrigado a refugiar-se no arquipélago, recebe como resposta de Churchill a informação de que o mesmo tinha recebido de Salazar uma comunicação que abria as portas a um entendimento Luso-Britânico sobre as ilhas, e que, desta forma, seria benéfico manter os EUA e a sua influência fora do processo, pelo menos por enquanto.

Contudo, num discurso de 27 de Maio, Roosevelt deixa claro que os Estados Unidos consideram as ilhas Açoreanas um ponto estratégico essencial na defesa do território Americano.

Os interesses Ingleses e Americanos cruzam-se uma vez mais, enquanto que a agitação política em Portugal é crescente, como resposta ao discurso de Roosevelt e à forma como este se refere às ilhas Portuguesas. Salazar comunica a Churchill, a 30 de Maio, que qualquer atitude americana que ignorasse a soberania portuguesa nas ilhas seria entendida como um acto de agressão contra Portugal.

Em Agosto de 1941, Franco envia para a frente russa a famosa divisão azul, em nome da luta anticomunista. Churchill e Roosevelt assumem como lógica o abandono da neutralidade espanhola, e na célebre conferência do Atlântico aborda-se novamente a hipótese da ocupação dos Açores.

Desta conferência sai a ideia de que (...) os dois (EUA e Inglaterra) concordaram que a carta (que Salazar havia enviado a Churchill) era altamente satisfatória e que tornava possível, sem qualquer dificuldade, o planeamento da ocupação dos Açores, para assegurar que as ilhas não sejam ocupadas pela Alemanha. [49].

No entanto, Portugal continua a refugiar-se na Aliança com a Inglaterra para afastar os Estados Unidos das negociações.

Em 1943, os comboios de barcos aliados que navegam no Atlântico são uma presa relativamente fácil para os barcos-U alemães, mesmo com o reforço americano do patrulhamento aéreo do oceano. A ocupação das ilhas portuguesas é novamente discutida secretamente na conferência de Trident (Roosevelt e Churchill reúnem-se com os seus respectivos chefes militares em Washington, em Maio de 1943), de onde saiu a conclusão de que os Açores eram um ponto vital para a condução da guerra anti barcos-U.

Deste encontro sai a operação Lifebelt (cinto de segurança), que visava a ocupação dos Açores a curto prazo. Sob a liderança britânica, forças conjuntas Inglesas e Americanas iriam tomar as ilhas. Nesta fase, Churchill já perdeu a paciência com Salazar, e embora dê sempre primazia aos meios diplomáticos, o chefe de Estado inglês comunica ao seu gabinete de guerra que pessoalmente, estou preparado, se os E. U. se juntarem a nós (...) não só para abordar os portugueses, mas também para fazer-lhes saber, se eles nos criarem dificuldades, que nós tencionamos apoderar-nos dessas ilhas (...) e esperamos que isso possa ser feito sem derramamento de sangue. Seria mais fácil para eles renderem-se, sob protesto, (...) mesmo indo tão longe como cortarem relações diplomáticas connosco, do que serem coniventes ou admitirem abertamente uma tal violação da sua neutralidade. [50].

Salazar apercebe-se que os dois chefes de Estado aliados começam a privilegiar outras vias que não as diplomáticas. Receando o ataque aliado às ilhas Açoreanas (que, como vemos, estava a ser preparado e seria posto em prática brevemente), e numa manobra diplomática que visa claramente ganhar mais tempo, Salazar convoca, a 8 de Junho, o embaixador Ronald Campbell, para discutirem novamente os fundamentos da questão estratégica dos Açores. Argumentando que os êxitos aliados no norte do continente africano impossibilitavam certamente uma invasão alemã à Península Ibérica, Salazar compromete-se a usar as ilhas atlânticas como base da resistência caso isso acontecesse. Com esta medida, o presidente do conselho consegue uma vez mais garantir a integridade territorial portuguesa.

As relações entre o nosso país e os aliados melhoram (nomeadamente com a Inglaterra). No dia 18 de Junho, Campbell pede oficialmente a Salazar facilidades nas ilhas Açoreanas para os Ingleses. Lembra o ditador português da aliança Luso-Britânica, esforça-se por lhe fazer ver que o rumo da guerra é claramente favorável aos aliados, e que uma invasão alemã à Península é agora muito pouco provável. Salazar mostra-se pela primeira vez mais flexível.

Para Roosevelt, no entanto, a hipótese da entrada das tropas de Hitler na Península não é de excluir. O presidente norte americano propõe a Churchill o envio de tropas aliadas para defender o território português , mas este recusa a ideia, garantindo a Roosevelt que Salazar pretende manter a neutralidade de Portugal a todo o custo. Fica definido que as tropas só entram em território Português se Salazar assim o quiser, para que a neutralidade não seja posta em causa, e para que não seja dada uma desculpa aos Alemães para invadirem a Península.

No dia 17 de Agosto de 1943 assina-se o acordo que dá aos Ingleses o direito do uso das facilidades dos portos da Horta e de Ponta Delgada, e dos campos aéreos das Lajes e de Rabo de Peixe. Os Estados Unidos ficam de fora do acordo, e sentem-se atraiçoados pelos Ingleses, que lhes asseguram que, após a entrada nos Açores, a 8 de Outubro, tudo vão fazer para que Portugal aceite também a presença das tropas americanas.

Vendo os seus interesses ultrapassados, os Estados Unidos abandonam a política de submissão diplomática à Inglaterra (nas negociações com Portugal, obviamente), e expõem um plano para o uso americano das ilhas Açoreanas. Catalogado de irrealista por Churchuill, as exigências americanas excediam largamente aquelas que tinham sido concedidas aos britânicos. O chefe de Estado inglês chama a atenção de Roosevelt para as dificuldades de relacionamento diplomático com Portugal, e adverte-o de que a revelação pública do plano só serviria para assustar os portugueses, e prejudicar os interesses das forças aliadas.

A guerra não corre bem aos alemães: perdem terreno na Rússia e os aliados entram em Nápoles. Não se prevê, assim, qualquer retaliação alemã quanto à decisão de Salazar, e a própria Espanha já assegurou o ditador que não reagiria à permanência das tropas Inglesas nos Açores. Mesmo assim, Salazar minora os riscos ao assegurar a Alemanha de que o fornecimento de Volfrâmio não seria interrompido.

É também nesta altura que Armindo Monteiro acusa Salazar de beneficiar a Alemanha, o que lhe vale a destituição do cargo que ocupa.

Daqui em diante, Salazar responde à cláusula friends to friends, foes to foes que os EUA teimam em citar para fazerem valer os seus interesses nos Açores com um argumento chave: que Portugal respeita essa cláusula, mas que o tratado é apenas com a Inglaterra, e não com as Nações Unidas, por isso não existe qualquer obrigação portuguesa em facilitar a entrada americana nas ilhas. Por detrás deste argumento está o que se sabe: uma profunda aversão ideológica Salazarista aos Estados Unidos da América.

No entanto, com a vitória aliada a desenhar-se no horizonte, Salazar começa a ceder: os técnicos militares americanos podem já permanecer em solo Açoreano desde que estejam disfarçados de pilotos ou técnicos civis da Pan American, a companhia que tem autorização para a construção de aeródromos nos Açores.

Segue-se um período de negociações em que Salazar vai cedendo aos poucos, até que autoriza, no dia 19 de Julho de 1944, as operações de um esquadrão de aviões americanos sob comando Inglês e com distintivos Inglês e Americano.

O fim do problema só surge em 28 de Novembro de 1944, com o acordo firmado entre Portugal e os Estados Unidos da América, que acaba por dar o mote para uma política de cooperação transatlântica a que Salazar tão longamente resistiu.
 

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Fonte:
Texto retirado do trabalho de fim de curso de João Pedro Trigo.


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JPT
19 de September 2012 às 10:16:25
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Olá, caro amigo. Já por cá não passava há algum tempo, mas aproveito por lhe dar os parabéns pelas mudanças no site. Peço-lhe que altere o meu email neste texto para joao_trigo@sapo.pt, por favor.
JRJR (admin@worldwar-two.net)
19 de September 2012 às 22:46:03
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Caro João, Obrigado pelo comentário. Ainda estou em fase de acertos/correcções. :) Já actualizei o seu e-mail. Mais uma vez obrigado!
José Bárbara Branco
27 de October 2012 às 18:09:20
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Excelente cronologia da acção diplomática de um grande estadista, na defesa dos interesses permanentes da Nação Portuguesa, utilizando sempre e ao longo de todo o conflito, com inteligência e argúcia, todos os trunfos perante as enormes forças em presença.
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