Novembro chegou, e também o Inverno
Animado com o progresso do Brasil, os americanos decidem passar o controle das tropas na sua totalidade para o comando brasileiro, e foi assim que o General Mascarenhas de Moraes, assumiu às zero horas do dia 1º de Novembro de 1944, com a chegada das demais Unidades da Divisão, o controle da totalidade dos seus meios, inclusive das operações que se processavam no vale do Serchio. Entre 3 e 7 de Novembro de 1944, a FEB mudaria de frente de combate e deveria seguir para o vale do Reno. Alguns generais americanos não concordavam com isso, dizendo que os brasileiros ainda eram muito imaturos para tais acções. Mesmo assim, lá se foram os brasileiros. A defensiva no vale do Reno, como foi chamado este período, caracterizou-se por quatro ataques mal sucedidos contra Monte Castello, que formava um ponto crucial para a conquista da tão desejada estrada para Bolonha.
Os primeiro e segundo ataques foram realizados, respectivamente, a 24 e 25 de Novembro pelas tropas americanas, comandadas pelo general americano e reforçada por um Batalhão e outros elementos da Divisão Brasileira, tendo falhado devido à descoordenação que existiu. Os terceiro e o quarto ataques foram realizados pelas tropas brasileiras, nos dias 29 de Novembro e 12 de Dezembro, respectivamente, tendo ocorrido com os mais dolorosos insucessos, pelas baixas sofridas e pelo abalo moral produzido nos combatentes estreantes e sem noção do que encontrariam pela frente.
O insucesso das operações foi resultado da inexperiência de alguns soldados que se estrearam na linha da frente e da falta de comunicação dos dois comandos que não sincronizaram os ataques.
Viu-se logo que para tomar o Monte, era preciso cercá-lo através de outros montes vizinhos no conjunto Belvedere-Gorgolesco-Castello-Torraccia, empregando um mínimo de duas Divisões bem apoiadas em artilharia e aviação.
Mas o general Inverno chegou, e com ele as dificuldades para os brasileiros, que acostumados ao clima tropical enfrentaram um frio de até -18°C.
Mas o pracinha era criativo e descobriu como proteger-se do frio. Por exemplo, para evitar o pé de trincheira, que era o congelamento dos pés, o pracinha descobriu que colocando duas meias e forrando as galochas para a neve com feno e papel, poderia impermeabilizar os pés. Resultado: todos os outros países copiaram a ideia.
Os meses de Dezembro e Janeiro passaram-se com um imenso frio, e o terreno de combate ficou caracterizado de terra de ninguém devido ao facto dessa área onde ocorriam os constantes embates entre patrulhas de alemães e brasileiros não fazia parte nem da área aliada nem da área alemã.
Outro facto que chamava a atenção no exército do Brasil, era o de que ao contrário dos outros exércitos, não havia separação por raça, cor de pele, e/ou religião. Todos lutavam juntos, como um só país. Os americanos que tinham divisões especiais para negros por exemplo (92º RI), estranhavam que no Brasil lutassem juntos brasileiros, negros, descendentes de europeus, árabes, indígenas, e todas as raças que compunham a riqueza étnica do país, afirmando que a mistura tirava a combatividade do exército.
Foi com esta diversidade que na manhã de 16 de Fevereiro de 1945 se realizou uma conferência de altos chefes militares no QG do IV Corpo, em Lucca. Entre os generais Crittenberger, Mascarenhas de Moraes, George Hays e William Crane, respectivamente comandantes do IV Corpo de Exército, 1ª DIE, 10ª Divisão de Montanha e Artilharia do IV Corpo, assistidos por vários oficiais de menor patente, ficou decidido que o Brasil atacaria de novo Monte Castello, sendo que desta vez as acções não poderiam falhar visto tratar-se de uma questão de honra.
A acção começou ao amanhecer do dia 20, com a conquista pela 10ª Divisão de Montanha do Monte Belvedere e Gorgolesco. Às dezassete horas do dia 20 de Fevereiro, foi conquistada Mazzancana, já bombardeada pelos aviões da Força Aérea Brasileira e no dia 21 pela manhã, após um feroz combate que começou às 6h, e terminou às 17h20, a Divisão Brasileira fez cair Monte Castello.
A acção principal do ataque foi executada pelo Regimento Sampaio, coberto, no seu flanco direito, por um batalhão do 11º RI e no seu flanco esquerdo, ligado à 10ª Divisão de Montanha que atacava Monte Della Torraccia.
Mas as coisas não melhoraram depois disso, pois nos dias 23 e 24 de Fevereiro outros montes como La Serra também ofereceram forte resistência, mas também caíram e até o dia 4 de Março, foi realizada a limpeza do vale do Marano.
O ataque a Castelnuovo, que desde Outubro vinha trocando de posse foi realizado a 5 de Março de 1945, tendo ficado definitivamente nas mãos dos brasileiros.
Outras missões ainda deveriam ser realizadas, e à Divisão Brasileira coube o encargo de:
1) conquistar Montese e explorar o êxito até o corte do rio Panaro;
2) substituir continuamente o flanco ocidental (esquerdo) da 10ª Divisão de Montanha;
3) progredir na direcção de Zocca-Vignola.
E assim foi. No dia 14, as acções culminaram na queda de Montese. Por volta das 15 horas o 11º RI de São João Del Rey conseguiu penetrar na vila de Montese, desorganizando e envolvendo as resistências. Os blindados americanos, seguidos pela infantaria brasileira, atingiram, pouco antes das 18 horas, a encosta meridional de Montebuffone, a norte de Montese. Ainda restava a conquista das alturas de cota 927 e Montelo, para cobrir o avanço da 10ª Divisão de Montanha, contra as vistas e os fogos inimigos. Os brasileiros progrediram até à 788. Ao entardecer do dia 15, a Divisão Brasileira recebeu a missão de manter suas actuais posições e prolongar a sua frente para leste. A posição caiu no dia 19.
Agora era preciso completar o segundo objectivo que era o de ir rumo a Zocca- Monte Orsello - Viggnola, fazendo a limpeza da margem oriental do Panaro e guardando o flanco esquerdo do V Exército.
No dia 22 a tarefa já estava cumprida, e os alemães espalharam-se pelo vale do Pó, já buscando voltar para as suas fronteiras e apoiar os exércitos alemães que defendiam a Alemanha.
Os comandantes decidem perseguir o inimigo e cortar o seu avanço. A Cavalaria fornece o transporte para as tropas e a 26 de Abril, decidiu encetar a perseguição entre os cortes do Enza e Taro. Na tarde de 26 de Abril choca-se o Esquadrão de Reconhecimento, em Collecchio, com forças inimigas, cujo valor era superior às suas possibilidades, e, ao anoitecer, um batalhão do 11º RI, em colaboração com o Esquadrão e uma companhia do 6º RI, toma contacto com as tropas alemãs, que se defendem tenazmente. Pela madrugada de 27, aumenta a luta e que se prolonga por algumas horas.
Era a 148ª Divisão de Infantaria Alemã, formada por mais de 14 mil homens, que de súbito se vêem cercados, sem opção. Era lutar ou morrer, ou se render e poupar vidas. Eles vinham do sector costeiro de La Spezia e em rota batida para o Norte do rio Pó. Os alemães ainda resistem até 28 de Abril. Emissários tratam de pedir o fim das hostilidades. Um padre trata de ser o mediador do acordo. Horas depois, na madrugada de 29 de Abril, tinha começo o espectacular episódio da rendição incondicional da 148ª DI Alemã e dos remanescentes da 90ª Divisão Blindada e Divisão Bersaglieri Itália.
De uma vez só, caíram perante os brasileiros, 14.779 prisioneiros, entre os quais figuravam dois generais e mais de oitocentos oficiais. Apreenderam também cerca de oitenta canhões, um milhar de viaturas automóveis, duas centenas de veículos de tracção animal, quatro mil cavalos, grande quantidade de armas automáticas, fuzis e outros equipamentos vitais. As baixas do lado brasileiro foram de 5 mortos e 50 feridos.
Na noite de 28 de Abril, enquanto se travava o combate de Fornovo, elementos avançados da Divisão Brasileira ocupavam a planície que envolve a cidade de Placência e, no dia seguinte, transpunham o Pó para estabelecer uma ponte no Norte desse rio. A 2 de Maio, um batalhão do 11º RI, reforçado por outros elementos, ocupou a importante cidade de Turim.
Nesse mesmo dia o Esquadrão de Reconhecimento, reforçado por forte patrulha do I/11º RI, alcançou a localidade de Susa, 32 quilómetros da fronteira italo-francesa, fazendo ligação com a 27ª Divisão do Exército Francês. Nesses dezanove dias de ofensiva, foram feitos mais de dezanove mil prisioneiros.
Era o fim do domínio alemão na Itália. Vendo isso, no dia 3 de Maio começa a ocupação brasileira na Itália, que duraria até o 28 de Agosto.
Retornaram para o Brasil o Escalão nº 1, que chegou ao Rio de Janeiro a 18 de Julho de 1945 e o de nº 5, último Escalão, chegou ao mesmo destino a 3 de Outubro do referido ano.
O governo Vargas por medo, ou receio de que os homens que haviam lutado pela FEB em busca da liberdade do povo italiano, quisessem também lutar contra o seu governo ditatorial, pelo aviso 217-185 de 6 de Julho de 1945 estabeleceu que à medida que fossem chegando ao Rio de Janeiro os diversos Escalões, de regresso de Itália, fossem sendo extintas tais unidades.
A FEB deixou no pequeno e florido cemitério brasileiro da cidade de Pistóia, perto de Florença, 454 mortos. Cerca de 23 soldados foram considerados como extraviados (dos quais 10 enterrados como desconhecidos). Os mortos da FEB foram trazidos em 1960 de volta para o Brasil e descansam em um cemitério carioca.
Desde o dia 16 de Setembro de 1944, a FEB percorreu, conquistando ao inimigo, às vezes palmo a palmo, cerca de 400 quilómetros, de Lucca a Alessandria, pelos vales dos rios Sercchio, Reno e Panaro e pela planície do Pó; libertou quase meia centena de vilas e cidades; sofreu mais de 2.000 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos; fez o considerável número de 20.583 prisioneiros, inclusive dois generais - o general Otto Fretter Pico, comandante da 148a DI alemã, e o General Mario Carloni, comandante do que restava da desbaratada Divisão de Bersaglieri Itália. Ao total foram 2 Generais, 892 Oficiais e 19.689 Praças. A FEB ainda capturou: 80 Canhões, 5.000 Viaturas e 4.000 Cavalos.
Da conquista de Camaiore, na frente do rio Serchio, à rendição da 148a DI alemã, em Collechio-Fornovo, a 1a DIE não deixou de cumprir uma só das missões que lhe foram atribuídas pelo General Willys Dale Crittenberg, comandante do 4o Corpo de Exército, ao qual a tropa brasileira estava incorporada.

